Acontece no Digital
O Silêncio Assustador das Ligações Mudas e o Perigo Iminente nas Eleições de 2026
Por Rodrigo Neves, Presidente da AnaMid
Vivemos uma epidemia silenciosa, paradoxalmente propagada através de nossos telefones. Diariamente, milhões de brasileiros são bombardeados por uma enxurrada de ligações indesejadas. São chamadas que, ao serem atendidas, revelam apenas o silêncio, uma música de espera interminável ou, pior ainda, o início de um golpe sofisticado.
O que antes era considerado apenas um incômodo do telemarketing abusivo, transformou-se em uma grave ameaça à segurança pública e à integridade de nossas instituições democráticas.
O aumento absurdo dessas chamadas, conhecidas como robocalls, atingiu níveis alarmantes. Dados recentes indicam que as operadoras de telecomunicações contabilizaram mais de 1 bilhão de spammers em ligações telefônicas, gerando prejuízos globais que ultrapassam a marca de US$ 480 bilhões anuais.
Diante desse cenário, as plataformas de bloqueio, como o “Não Me Perturbe”, que registrou 1,7 milhão de novas adesões apenas no último ano , mostram-se insuficientes. Por mais que o consumidor tente se proteger cadastrando seus números, as ligações continuam a acontecer, evidenciando a ineficácia das medidas paliativas atuais.
A verdadeira solução exige uma mudança de paradigma na atuação das operadoras de telecomunicações. É imperativo que essas empresas comecem a bloquear esse tipo de chamada já na fonte, antes mesmo que atinjam o aparelho do consumidor. As operadoras possuem a tecnologia e os dados necessários para identificar padrões anômalos de tráfego telefônico e devem ser cobradas, de forma mais rigorosa, por sua inércia.
A proteção do consumidor não pode ser terceirizada para aplicativos de terceiros ou listas de bloqueio ineficientes; ela deve ser uma obrigação inerente à prestação do serviço de telefonia.
O perigo dessas ligações mudas vai muito além do incômodo diário. Criminosos estão utilizando essas chamadas para capturar a voz das vítimas. Com apenas alguns segundos de áudio, ferramentas avançadas de Inteligência Artificial (IA) conseguem criar cópias perfeitas da voz de qualquer pessoa.
Essa tecnologia, conhecida como deepfake de áudio, é então utilizada para aplicar golpes financeiros, enganando parentes e amigos que acreditam estar falando com um ente querido em situação de emergência. Casos internacionais já demonstraram o potencial destrutivo dessa fraude, com empresas perdendo milhões de dólares devido a ordens de transferência falsas emitidas por vozes clonadas de executivos .
A gravidade dessa situação ganha contornos ainda mais preocupantes quando projetamos esse cenário para as eleições de 2026. Estamos prestes a vivenciar uma das campanhas eleitorais mais complexas e desafiadoras de nossa história. Será o primeiro grande pleito em que a Inteligência Artificial estará amplamente acessível e aperfeiçoada, permitindo a criação de conteúdos audiovisuais fraudulentos com um nível de realismo sem precedentes .
A capacidade de clonar vozes e manipular vídeos (deepfakes) representa uma ameaça direta à lisura do processo eleitoral. Imagine o impacto de um áudio falso, divulgado às vésperas da eleição, atribuindo declarações criminosas a um candidato. O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) já demonstrou preocupação com esse “risco sistêmico” e aprovou novas regras para restringir o uso de IA nas campanhas. No entanto, a regulação eleitoral, por si só, não será suficiente se a infraestrutura de telecomunicações continuar vulnerável e permissiva.
A AnaMid – Associação Nacional do Mercado e Indústria Digital tem o dever de alertar a sociedade e cobrar ações efetivas das autoridades competentes.
Precisamos de uma atuação conjunta entre a Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel), o TSE, o Ministério Público, as operadoras de telefonia e as entidades de classe ligadas ao digital.
É urgente a implementação de tecnologias de autenticação de chamadas e o bloqueio proativo de tráfego suspeito na origem.
Não podemos permitir que a tecnologia, que deveria servir ao progresso e à comunicação, seja sequestrada por criminosos para roubar nossas vozes, nosso dinheiro e, em última instância, nossa democracia. Uma nova atuação das operadoras é o primeiro passo indispensável para restaurar a segurança e a confiança em nossas comunicações.
O silêncio das ligações mudas é, na verdade, um grito de alerta que não podemos mais ignorar.
Referências
Agência Brasil. “Plataforma Não Me Perturbe teve 1,7 milhão de adesões em 2025”.
G1. “Golpe da ligação muda: criminosos clonam voz para fraudes”.
Agência Senado. “IA e desinformação: por que as eleições de 2026 exigem atenção redobrada”.
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